terça-feira, maio 08, 2007

Final Feliz

Eu acredito em contos de fadas, histórias de muito e muito tempo atrás, em rei e rainhas, príncipes e princesas e acredito no final feliz. Por isso, que nos dias de hoje, devo concordar com Miguel Falabella em sua crônica de uma Rapunzel bem contemporânea.



“Há dias em que precisamos de tranças. Há dias em que a torre parece mais alta. Ah! Rapunzel! Tenho saudades e você. Escreva ade vez em quando. Ou faz um sinal de fumaça.”


O poder da trança
Miguel Falabella

Houve um caso curioso, quando eu era menino: uma das minhas primas, prestes a se casar, descobriu algum segredo inconfessável sobre o noivo e cancelou o casamento que aconteceria dali a pouco dias. Como não havia tempo de avisar a todos os convidados, minha tia vestiu-se com esmero – naqueles tempos, os vestidos eram pensados com muita antecedência e a fazenda comprada depois de muita pesquisa – maquiou-se, penteou-se e postou-se à porta da igreja, com ar compungido, pedindo desculpas pelo transtorno e comunicando que os presentes seriam devolvidos. Nunca soube que segredo foi esse, o nome nunca foi pronunciado, mas acho que todo mundo tinha uma única e definitiva desconfiança. Enfim... Anos depois, na calada da noite (são exatamente 1h33 da manhã e eu escrevo a crônica de véspera para ter algum tempo livre amanhã), lembro dessa história, porque acho que faltou-lhe o começo da história. Explico: em todos os contos de fada, justiça seja feita, somos avisados de que a morte nos ronda, mais cedo ou mais tarde. Há sempre um rei que, antes de morre, deixa alguma herança, ou faz algum pedido para seus filhos, etc e tal. Só que esquecemos desse rei, porque geralmente ele sai de cena cedo e ficamos apenas com o foram felizes para sempre na alma, esperando nossa vez de protagonizar o drama.
Acho que é em “A Psicanálise dos Contos de Fadas”, de Bruno Bettelheim, já não estou bem certo, mas acho que é lá mesmo. Em seus trabalhos com terapia infantil, uma de suas pacientes, uma menina muito nova, rejeitava todas as histórias. Uma após a outra. Ela recusava-se a participar dos jogos propostos. Até que apaixonou-se por Rapunzel. Depois de conhecer a história da jovem presa na torre que consegue salvar-se sozinha, ela começou a melhorar e houve a comunicação. Rapunzel é talvez, a única heroína que resolve seu próprio problema, sem que uma atarefada fada madrinha interfira. É claro que há o príncipe, mas ele não chegará lá no alto, não tivesse ela tido a idéia e, a paciência de deixar crescer os cabelos.
1h45. Fui olhar a casa, dormindo, passei pela televisão ligada no quarto e Hugh Laurie, em mais um episódio de “House”, diz que, no fim das contas, o universo acaba empatando o jogo.
- É verdade? Você acredita mesmo nisso? – pergunta o jovem médico.
- Não. Mas é assim que devemos ser. – ele responde.
Há dias em que precisamos de tranças. Há dias em que a torre parece mais alta. Ah! Rapunzel! Tenho saudades e você. Escreva ade vez em quando. Ou faz um sinal de fumaça.

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