quinta-feira, fevereiro 22, 2007

As pessoas ainda se afogam e os meninos soltam pipa


Quarta-feira de cinzas, praia cheia, crianças, ressaca, água gelada e cristalina com direito a peixinhos. Eu, como boa moradora de Vila Isabel e foliã que sou, estava no grupo da ressaca. Ressaca só da danada da cerveja, porque dos blocos de rua do carnaval carioca, desses não! Aliás, na concentração do Quizomba – cada vez mais cheio, diga-se de passagem – os foliões gritavam: “ô ô ô ô ô ô ô ô o Rio é melhor que Salvador. A velha história. Não conheço o carnaval de Salvador, por isso não posso dizer. Mas do Rio, esse posso. E o melhor, ainda não terminou!
Voltando a praia, as pessoas que se afogam e aos meninos que soltam pipa, só para ilustrar meu devaneio, vira e mexe fico enquadrando em minha mente cenas do dia-a-dia. Um sorriso perdido, uma banca de frutas, o trânsito, a lua (sempre), o anoitecer, pés, ou melhor, sapatos, enfim, enquadrando e fotografando na mente. Então hoje, nessa ensolarada quarta de cinzas, me vi diante de um desses quadros.
Um menino de sunga vermelha soltava pipa na praia enquanto ao fundo, via um helicóptero salvando um banhista que estava se afogando. O mar estava cristalino, com peixinhos, com água muito gelada e muito agitada. Esta com certeza é uma cena que se repete nos finais de semana ensolarados pelas praias deste país. Mas pense nesse quadro. O menino, a pipa e o salvamento. Sem ligar para o helicóptero e toda a agitação do povo curioso ao redor, o menino soltava pipa.
Estava assim: em primeiro plano, o menino, de sunga vermelha. Ele tinha uns 6, 7 anos. Estava de lado para mim, de costas para o mar. A pipa não estava tão alta, era pequena e vermelha também. Ao fundo, no segundo plano, uma corda que ligava o helicóptero à rede que “pescava” o banhista afogado.
Eu havia acabado de ler a sessão de cartas de uma revista semanal. Havia me emocionado com declarações de leitores sobre a reportagem da semana anterior que falava da barbárie que vitimou João Hélio. Já tinha terminado a leitura, mas não o pensamento. Foi quando o som do helicóptero me chamou atenção e quando procurei a aeronave no céu e vi o menino de sunga vermelha, em primeiro plano. O nome dele? É Igor – sempre chamo as pessoas pelo nome - , ouvi quando sua mãe chamava-o, disputando atenção com a pipa.
As férias da praia, talvez, tivessem me feito esquecer que as pessoas se afogam. Perigoso, mas normal. Quanto ao Igor, o menino da sunga de vermelha, não sei porque o enquadrei. Acho que foram as cartas que li. Que eu não leve mais um ano para ir a praia e lembrar que as pessoas ainda se afogam. E que sempre os meninos possam soltar pipas.

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